segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pequena leitura sobre as idéias schumpeterianas de inovação.

por Antônio Hilário Gomes

“Nos momentos de crise só a imaginação é mais importante que o conhecimento”

A. Einstein

Joseph A. Schumpeter nasceu na Áustria, em 1883, onde foi professor nas Universidades de Cenati e Gras. Lecionou também na Universidade de Bonn, na Alemanha e a partir de 1932 foi professor de Harvard, onde permaneceu até sua morte, em 1950. Sua principal obra foi “The Theory of Economic Development”, publicada em 1912, na qual estão inseridas as idéias básicas de seu pensamento econômico.

Apesar de seus estudos fazerem uma análise críticas das teorias Marxistas e dedicarem-se a explicar apenas o desenvolvimento econômico que se verifica no capitalismo, Schumpeter não consegue manter o antagonismo completo ao socialismo. Como um dos fundadores da Teoria da Inovação e Dinâmica Econômica ele enfatiza o caráter revolucionário do capitalismo industrial, afirmando que esse se renova e que a inovação é o motor do desenvolvimento econômico e, conseguintemente, do desenvolvimento social.

O grande conhecimento e profunda análise sobre Marx tornam Schumpeter, o que se poderia chamar de um “neocapitalista”. Pois, se para Marx o capitalismo era um mal transitório que entraria em crise pela sua própria obsolescência e em crise seria destruído pela luta de classes e renovado pelo socialismo; para Schumpeter o capitalismo era o caminho para melhorar as condições de vida das pessoas e a crise gerada por sua obsolescência o levaria a uma destruição transformadora e a renovação ocorreria naturalmente, graças a sua capacidade de inovação. Tudo isso o torna mais que um economista: um sociólogo com visão ampla do capitalismo.

Como teórico do desenvolvimento capitalista, Schumpeter prega que a natureza evolutiva e progressiva decorre da inovação, que é o motor desse desenvolvimento. A inovação tem origem em um impulso, que é inerente ao capitalismo, transformador da vida econômica e gerador de desenvolvimento. Esse impulso fundamental que se inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre de novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial, que a empresa capitalista cria. Assim, Schumpeter define suas cinco vias de inovação:

1. introdução de um novo bem ou de uma nova qualidade a um bem já existente;

2. introdução de um novo método de produção;

3. abertura de um novo mercado;

4. conquista de uma nova fonte de oferta de matérias-primas ou de bens semimanufaturados e,

5. estabelecimento de uma nova organização em qualquer indústria.

Segundo essa teoria, produzir é combinar materiais e forças; já inovar é produzir outras coisas ou as mesmas coisas de outra maneira, combinar diferentes materiais e forças, ou seja, realizar novas combinações que tragam retorno financeiro.

A inovação, através da destruição criativa, dinamiza a economia, pois produz contínua mutação que revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, destruindo a velha e produzindo uma nova. Esse processo é o fato essencial ao desenvolvimento capitalista, visto que não tem sentido manter indefinidamente as instituições obsoletas. Essa destruição criativa se torna mais evidente a partir dos anos cinqüenta, após a segunda guerra mundial. O desafio pós-guerra era a inovação tecnológica. Sem ela, o progresso da economia ficaria estagnado; então, para facilitar, o progresso técnico passa a ser tema central na análise econômica e social e assim surge a necessidade de entendê-lo melhor, bem como a de profissionalizar a P&D. A produção do conhecimento e sua incorporação em inovações tecnológicas são instrumentos cruciais para o desenvolvimento sustentável. Para o desempenho econômico as inovações são o principal determinante do aumento da produtividade e da geração de novas oportunidades de investimentos.

A profissionalização de P&D é essencial para incrementar a invenção que é indispensável à inovação. Inventar é gerar e desenvolver novas idéias, superando as dificuldades conceituais e práticas, o que não implica em seu uso comercial.

Inovação é aquilo que representa novidade para o mercado, ou seja, é poder dar uso comercial a uma boa idéia. É uma solução técnica economicamente viável que resolve de fato um problema e, portando tem valor de uso e de troca.

Existem vários tipos de inovações além da tecnológica. Podemos citar, dentre outras, a organizacional, tão presente nos dias de hoje. De modo geral as inovações podem ocorrer de duas formas: radical ou incremental, de acordo com o efeito desejado por quem as implanta em uma organização.

Dito tudo isso, é preciso lembrar que inovar requer planejamento e que P&D é a principal fonte de inovação tecnológica.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Vida de prateleira

Todos já devem ter ouvido falar que determinado produto estragado provocou problemas de saúde a alguém. Ora, isso é uma situação fácil de prevenir; veja: você tem o hábito de ler as informações que estão nas embalagens dos produtos de supermercado que consome? Esta deve ser uma atitude corriqueira; além de examinar o peso e a composição, você deve examinar, também, o prazo de validade. Afinal, todos têm o direito e o dever de saber o que está levando para casa e a que está expondo sua família.
No caso de produtos alimentícios, prazo de validade é tão importante quanto as informações nutricionais; estando fora deste prazo o alimento representa riscos à saúde.
Todo produto traz impresso o prazo mínimo de validade. No entanto, para que possa ser consumido com segurança, não basta estar dentro deste prazo de validade, é necessário que se obedeça às normas de armazenagem estabelecidas pelo fabricante.
Um iogurte, por exemplo, pode está dentro do prazo de validade, porém se a temperatura na qual é armazenado for muito elevada, certamente não prestará para o consumo, ou seja, o prazo de validade pode ser inútil se o produto for manuseado de forma incorreta.
Bem, mas não são apenas com produtos alimentícios que se deve ter cuidado. Todo e qualquer produto deve ser usado conforme as recomendações do fabricante. Um exemplo é o óleo de motor de automóveis.
Uma pergunta interessante que surge é: todo produto tem prazo de validade? A resposta é não. O óleo de motor de carro, por exemplo, não tem um prazo de validade para consumo.
Enquanto está envasado o óleo não tem prazo de validade, contudo devem-se tem algumas precauções com o seu armazenamento. Os frascos não podem ficar expostos às condições do tempo, como sol e chuva, esses fatores podem contribuir para o desgaste das embalagens provocando reações que podem se alastrar até o óleo alterando sua composição química.
Se o óleo para motor de carro não tem prazo de validade por que então ele é trocado e por que se estabelece um tempo ou quilometragem para tal?
Com o tempo vão-se acumulando resíduos e havendo um desgaste natural dos aditivos usados na composição original do próprio óleo, tornando necessária a sua troca. É por esse mesmo motivo que também não se deve completar o nível de óleo. Quanto mais vez se completa o óleo, mais se acumulam resíduos.
O período de troca do óleo é definido pelo fabricante do veículo e não pelo fabricante do óleo. É ele quem desenvolve um programa de teste e resistência para cada modelo fabricado. A partir dos resultados desse programa é que se define o tipo de óleo e o tempo ou quilometragem adequada para cada troca. O tempo nunca deve ultrapassar os seis meses, período em que há um grande acúmulo de resíduos.
Do ponto de vista químico, tanto o tempo de vida em prateleira de um produto alimentício, quanto o tempo de troca de óleo lubrificante de um motor são processos cinéticos que devem ser avaliados e os resultados apresentados estatisticamente. Quando as alterações num óleo ou num alimento de prateleira provocar mudanças de composição, é hora de marcar o fim de sua vida útil.
Por isso, sempre que for trocar o óleo de seu carro fique atento às recomendações de sua montadora. Use aquele indicado pelo manual do proprietário e evite completar o nível, assim você estará evitando problemas e mantendo o tempo de vida útil do motor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Já pensou em Química hoje?


Você já pensou quais processos estão associados às diferentes fases do desenvolvimento de sua vida? Bem, na verdade, são vários. Podemos citar alguns: os biológicos, os físicos, os emocionais e os sociais. No entanto, todos esses processos são”dominados” por um outro: o químico.
Pensar – o mais importantes dos processos (mental e sentimental) da humanidade é “controlado” por uma série de fenômenos químicos. É interessante se observarmos que pensar é um ato involuntário, mas que pode ser, de certa forma, sistematizado. Assim também é necessária a sistematização do conhecimento, que é oriundo da observação dos fatos naturais. Dessa forma, poderemos utilizá-lo em prol do desenvolvimento sustentável da humanidade.
Como a Química é uma Ciência Natural, é fundamental a sistematização do conhecimento químico para que se possa aproveitar melhor os fenômenos da Natureza sem agredir a vida. Afinal, é isso que toda atividade humana deve priorizar: a Vida.
Não existe vida sem química; sem uma Química com continuidade e sustentável. Vejamos algo: a própria aproximação ou afastamento entre seres da mesma espécie ou de espécies diferentes são provocados pela a ação de feromonas. Havendo a aproximação de seres de sexo oposto de uma mesma espécie, outras ferramentas da Química se sobrepõem e passam a operar em seus corpos, provocando a evolução de outra vida que para sobreviver, depende de novos fenômenos. E, caso esses fenômenos sejam interrompidos, a vida também assim será.
Vivendo, observamos fatos interessantes, como a necessidade de expansão dos horizontes ampliando a concepção de vida ativa. Para que isso ocorra, a Química entra novamente em ação, fornecendo os “alimentos” necessários para tal. No entanto, devemos ter cuidado com a evolução dos fatos. A Química molecular, que nos permite a clonagem das espécies, precede de ética e moral. Pois, caso contrário podemos produzir “cópias” com pouco senso de valor ou com valores com os quais o homem ainda não saiba lidar.
Por tudo isso, é que se faz a seguinte pergunta: afinal, Química é boa ou é má?
Bem, nenhuma ciência tem o livre arbítrio, por isso mesmo não pode ser julgada. Contudo, o homem pode e deve ser julgado por suas atitudes. Não é a Química que polui os rios, os mares, as floresta e o ar, é, sim, o homem em sua busca desenfreada pelo acúmulo de riquezas.
Reflita um pouco sobre suas atitudes. Deixe de olhar a Química apenas com os olhos da cara. Passe a vê-la um pouco mais com os olhos da razão e do coração, assim viverá melhor. Pense!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O feito e o fazendo

Engana-se aquele que acha que uma Feira de Ciências ou Cultural de uma instituição de Ensino deva apresentar trabalhos perfeitos e impecáveis. Eles até acontecem, mas não é esse o objetivo. O propósito dessa atividade é despertar o prazer de fazer, não simplesmente mostrar o já feito.
Durante semanas, ou meses, alunos fazem seus experimentos. Erram. Desfazem. Consertam, erram novamente. Voltam a refazer. Nesse processo, vão descobrindo o fundamental: é fazendo que aprendemos.
O importante é fazer; o que já se encontra pronto, feito, serve apenas como inspiração.
Por isso, vale uma observação: ao visitar uma Feira de Ciências, não pergunte a alunos o que é isto ou aquilo, mas sim, como fizeram isto, como chegaram àquilo.
E não esqueça: finalize com um elogio. Afinal, tudo que é feito pelo aluno é aprendizagem.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um espelho para o rei


Havia, em um reino distante, um soberano que maltratava seu povo. Isso estava causando uma revolta compulsiva, até mesmo a rainha sentia-se constrangida. A revolta era tanta, que já se ouviam nos corredores do palácio rumores de golpe de estado. Os militares eram tratados como serviçais. Os súditos do palácio andavam amedrontados e faziam de tudo para não cruzarem com o rei.
Sua filha era tratada como uma cidadã comum, sem regalias e com desprezo. Nos momentos difíceis, contava apenas com sua mãe, que, no entanto, não podia fazer quase nada. Era fiscalizada de perto por um dos conselheiros mais próximos ao rei. Com isso era infeliz e vivia em depressão. Fazia tudo para agradar ao pai, mas nada surtia o efeito desejado. Seus pretendentes eram perseguidos e até expulsos do reinado.
Ela estava prometida a um príncipe de um reinado distante; por puro interesse comercial. Ele era detentor de uma frota de navios e dominava o comercio marítimo em quase todo o continente. Já o rei, seu pai, tinha muitas minas de ouro e uma agricultura deficitária. O acordo comercial com o príncipe era de suma importância para manter o suprimento de seus celeiros e a venda de seus minérios. A tirania do rei era tamanha, que, o que menos importava era a felicidade do seu povo.
A revolta atingira proporções graves. Um de seus conselheiros mais próximos propôs ao rei que fosse feita uma festa com trocas de presentes. Assim os súditos se aproximariam do palácio e as desavenças seriam desfeitas. Era uma excelente oportunidade para apresentar o príncipe a sua filha e a seus súditos.
Convites foram enviados a todos os feudos, artesões e comerciantes do reinado. Seus embaixadores viajaram a reinados e principados próximos para convidarem seus soberanos. Com isso, se esperava que os conflitos eminentes fossem desfeitos. Era uma oportunidade de ouro para todos. Muitos presentes foram comprados. Os melhores artistas foram convidados. Banquetes foram montados. Tudo estava em perfeita harmonia com as pretensões do rei.
Chegou o dia da festa. As caravanas começaram a chegar. O rei recebeu muitos presentes: jóias, animais raros, especiarias do oriente, até escravos o rei recebeu de presente.
De repente, todos levantam e se inclinam, o rei está entrando no ambiente. Senta em seu trono, que está rodeado de presentes: à esquerda, aqueles que foram enviados pelos convidados e a sua direita, aqueles que seriam distribuídos pessoalmente pelo rei.
O vassalo-mor começa a chamar as pessoas ali presentes, que se aproximam, beijam o anel do rei e recebem uma lembrança da festa.
Eis que no meio dos convidados surge um velho aldeão da região mais distante do reinado. Ele traz um presente embrulhado em uma folha de papiro. Aproxima-se e pede permissão para entregá-lo ao rei. Todos o olham com reprovação, afinal o presente deveria ter sido entregue logo que o convidado entrasse no palácio. No entanto, como o objetivo da festa era amenizar as relações com seus súditos, o rei prontamente autorizou a entrega do presente.
Todos ficaram curiosos. O que esse velho teria dado de presente ao rei?
O rei abriu o presente e, para surpresa de todos, era um espelho de prata. Foi o maior cochicho. O rei perguntou prontamente:
_ Por que me trazes um espelho, tenho tantos no palácio?
Todos fitam o velho a espera de sua resposta.
_É para que vossa majestade veja o que vem causando tantos conflitos em seu reinado.
Terminada a festa, todos partiram para suas casas. Somente o velho aldeão foi impedido de partir. No dia seguinte ele foi chamado a ter uma audiência com o rei.
_Como se atreve a trazer um presente desses? Não vê que me ofende com tal atitude?
_Senhor, muitas vezes é necessário que os outros nos mostrem quais os verdadeiros problemas que temos de enfrentar. Às vezes nossos problemas não passam de conflitos que devem ser travados com nós mesmos. Seu reinado é perfeito. O que deve mudar são as atitudes de vossa majestade.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Amor cachorro


E lá vem ela! Livre, solta, correndo contra o vento, quando, de repente, o encontra. Ele acabara de sair do chuveiro e estava a passeio pela pracinha, apenas para exercitar-se, sem a menor pretensão de encontrar alguém. Mas, enfim, encontrou Cristal, jovem clara, delicada e sensual, olhos pretos e brilhantes, lábios vermelhos e sedosos, capazes de refletir a luz. Ele se chamava Sheick, um moreno chocolate glamoroso e vaidoso, cheio de charme. Tinha cabelos rebeldes, como a maioria dos jovens.
Sem expressar uma só palavra, aproximam-se e fitam-se nos olhos. É amor à primeira vista. Um amor tão intenso que ali mesmo, sem a menor cerimônia, começam a rolar na grama. Correm, pulam sobre os bancos da praça. Roçam seus corpos viçosos e sedentos.
Soraya fita-os e pensa: "Como são felizes!"
Bruna olha e diz:
- Nunca vi Cristal tão alegre assim!
Eles combinam que a partir deste instante, este será o local de seus encontros e começam a planejar um futuro feliz, com casa, filhos, enfim, tudo o que um casal apaixonado pode imaginar.
Eis que de repente se ouve o grito de Soraya:
- Vem, Sheick! Ah, cachorro danado, acabei de banhá-lo e olha só como está!
- Vem, Cristal! - chama Bruna.
E cada um volta para sua coleira e sai cabisbaixo, olhando-se mutuamente. Mas, antes de partirem, eles combinam um próximo encontro, a sós, durante a noite, quando poderão ficar à vontade. Após varias tentativas, conseguem se encontrar novamente na pracinha do condominio. Agora livre para viverem aquele intenso amor.
Desse amor repentino, nascem Cornellius e Gauss.
E então chega o dia em que Sheick vai morar em outro bairro, Cornellius parte para morar com Nilda, Gauss vai fazer companhia a Dolores. E a pobre Cristal fica amargando a solidão, revivendo em seus pensamentos, um feliz amor cachorro.

sábado, 6 de setembro de 2008

Minha genealogia está em mim

Falar de família... Vou pensar um pouco. Quais as raízes de minha família? Afinal sou descendente de que raça?
Tudo que sei sobre meus antepassados são pequenos detalhes. Segundo o que andei ouvindo, meu bisavô paterno, Ignácio, pai de minha avó, era um homem muito rico. Não sei se isso é verdade, mas o certo é que cada um de seus sete filhos herdou uma casa de engenho e outra de farinha, além de muitas terras. Na época isso era muito valioso. Era tanta terra que se media em léguas. Disso tenho certeza, pois até hoje minha tia Matilde, prima de meu pai, é dona de uma pequena porção dessas terras e, além disso, eu lembro que me perdia indo da casa dos pais de meu pai para a casa dos pais de minha mãe. E quanto à casa de farinha e ao engenho de cana, eu também vi e cheguei até a brincar entre as moendas. Produzia-se farinha, mel, rapadura, alfenim e cachaça, é claro. Hoje, parte dessas terras pertence à igreja.
Quanto a Ignácio, era um senhor de engenho à moda da época, com escravos e tudo mais. Sabe-se que ele deu a meu avô, como dote, uma bacia cheia de moedas de ouro. Meu avô vivia a reclamar da sorte; dizia que fora criado por sua avó, segundo ele, uma velha chata e rigorosa. Na verdade, a reclamação era apenas uma forma de lamentar o “leite derramado”, pois já o conheci pobre e tendo que trabalhar muito para poder sobreviver. O dote fora gasto com farras.
A respeito dos avós de minha mãe, nada sei. O fato é que ao completar dois anos de idade, sua mãe, Raimunda, morre de parto e ela passa então a ser criada por sua madrinha, que por sinal é irmã da mãe de meu pai. Isso causou certo afastamento de seus parentes, mas, por outro lado, permitiu que eu e meus irmãos desfrutássemos de três avôs e de duas avós.
Nasci na antiga casa grande, herdada pela mãe Isaura, mãe de meu pai. Era por pai e mãe que todos os netos se referiam a nossos avós. O casarão enorme, de pedras e tijolos crus, com uma calçada alta, fora construído por escravos. Como era muito grande, após o casamento, meu pai continuou a morar por lá, onde nasci.
Meu pai se chama Osvaldo e meus tios são: Eduardo (in memoriam), Antônio Cícero, Chagas, Sebastião (in memoriam), Edi, Francisca, Joana e Nilce.
As boas lembranças do casarão são tantas que tenho medo de serem apenas memórias daquilo que gostaria de ter hoje. Era ao redor da mesa grande que todos sentavam, à noite após o jantar, para tomar café torrado e coado, feito em um fogão a lenha e ouvir a Voz do Brasil através de um rádio jaboti da Semp Toshiba.
Por dentro das terras de meus avôs passavam dois riachos que enchiam de vida as plantações de batata doce e o canavial. Foi num desses riachos que aprendi a pescar de facho e facão. Facho é uma espécie de tocha feita com bagaço de cana.
Saíamos à noite com uma tocha na mão e um facão na outra. Adentrávamos no riacho e ficávamos observando os peixes. Quando estes se aproximavam, tentávamos golpeá-los com o facão. Isso era mais uma brincadeira do que uma pescaria de verdade, servia para amedrontar as crianças e “testar” a virilidade dos jovens. Mas era divertido, ah isso era!
Chega! Não vou mais falar sobre minha família. Vou falar apenas de algumas de minhas aventuras de infância e adolescência. Sobre a família eu falo depois.
Nasci em terras “banhadas” por dois riachos, onde se plantava cana-de-açúcar, batata, mandioca e mamona. Criavam-se bodes e algumas cabeças de gado, galinhas caipiras e perus. Tudo que necessitávamos...
As primeiras lembranças são de farturas. Muito mel, rapadura, farinha, batatas, peixes e o baú de madeira que minha avó usava para guardar carne salgada que se encontrava sempre cheio. Ah, ia esquecendo, tinha as frutas, os pés de manga, de mamão e, principalmente, os de graviola, além dos coqueiros que cresciam nas baixadas próximas aos riachos. Fui crescendo e a fartura foi desaparecendo. Quando não dava mais pra viver bem nesse lugar, meu pai resolveu que deveríamos sair em busca de alternativas.
Deixamos tudo para trás e fomos para o Maranhão. Mudamos para uma área da região amazônica. Lá chovia de forma torrencial, provocando enchentes constantes nos igarapés.
A viagem foi uma aventura. Saímos do povoado onde morávamos montados em cavalos e fomos até a cidade de Ipu para pegar o trem para Teresina.
Lembro-me de vários acontecimentos dessa viagem, ou melhor, dessa aventura. Minha irmã Ivone quase fora deixada para trás. O trem já estava de partida quando um de meus tios a entregou para minha mãe pela janela. Chegamos a Teresina em uma tarde calorenta, como são todas as tardes naquela cidade. Vi pela primeira vez uma televisão. Fiquei encantado e muito curioso. Como uma pessoa podia caber ali dentro? Era 1970 e estava passando um jogo da seleção brasileira.
Passamos a tarde toda na Praça Saraiva esperando o ônibus para seguirmos até a cidade de Santa Inez, no Maranhão. Durante a viagem, o ônibus atropelou um boi, causando o maior alvoroço entre as pessoas. Mas enfim, chegamos sem maiores problemas.
Ainda pela manhã, partimos de Santa Inez para um povoado chamado Três Satumbas, não pergunte o porquê desse nome horroroso. Só sei que é um verdadeiro fim de mundo.
Lá fomos morar em uma casa de pau a pique, ou taipa como é conhecida na região, coberta com palhas da palmeira. Tive que fazer de tudo um pouco. Trabalhei na lavoura de arroz, fiz carvão, quebrei coco, pesquei, cacei, vivi muitas aventuras.
Para poder ajudar meus pais, comecei a trabalhar cedo, com sete anos de idade. Aprendi a plantar e a colher arroz, a quebrar coco (extrair a amêndoa) e a fazer carvão com suas cascas. Quando era época de coleta de laranja também estava por lá.
Além de fazer a coleta, eu levava um comboio de jumentos com cargas de laranjas para uma cidade próxima. Era tão pequeno que não conseguia montar sozinho, era necessária a ajuda de um adulto. Só podia descer quando chegasse ao destino. Para voltar, seguia o mesmo ritual.
Minha diversão preferida era subir nos pés de açaí, que por lá se chama juçara, e ficar brincando tal qual um macaco, pulando de uma palmeira a outra. Além do açaí, conheci outra fruta interessante, o bacuri, um pouco semelhante ao cupuaçu, porém com um sabor azedo e aroma marcante.
Para poder me divertir, tinha que ludibriar meus pais, que com cuidado extremo não deixavam que saíssemos para a mata, pois era perigoso devido à existência de animais silvestre como onças pintadas, sucuris e jacarés, por exemplo. Contudo, eu sempre dava um jeitinho de fugir.
Lembro-me como hoje que para poder ir pescar tinha que sair às escondidas. Passava dias e dias colocando azeite de coco babaçu no ferrolho da porta da cozinha para poder abri-la sem que meus pais percebessem. De madrugada eu fugia e deixava um recado com alguma pessoa dizendo que ia pescar. Voltava com um cofo (espécie de cesto feito com a palha do babaçu) cheio de peixes. Minha mãe verificava se estava tudo bem e me punha de castigo para eu não repetir o feito. Era tudo em vão. Na pescaria seguinte eu era o primeiro a me apresentar.
Outra coisa que eu gostava de fazer era ir até o engenho e ficar olhando o trabalho. Era como relembrava o passado recente. Além disso, era a oportunidade que tinha de provar a cachaça ou a rapadura quente, que ali se produzia.
Sempre trabalhei muito, mas sempre fui e sou feliz, pois soube me divertir mesmo nas situações mais adversas.
Uma grande alegria animava todos nas noites de lua cheia. Os adultos sentavam na frente das casas e ficavam contando estórias. Já as crianças ficavam brincando de roda e cantando, enquanto os jovens escapavam para namorar. Parecia um ritual. Para os adultos, o café, a pinga e o cigarro de palha, para as crianças as batatas e o milho assado na brasa da fogueira e, os jovens, sumiam.
Morar no Maranhão parece que foi um castigo para toda a família, pois apesar da fartura que a terra oferecia, padecíamos muito com as doenças silvestres e, além disso, sofri um grave acidente.
Eu era um garoto muito curioso e persistente. Certo dia, resolvi pegar uma carona em um jipe. Até ai nada demais, o problema é que o dono do carro não sabia que eu estava escondido debaixo de umas palhas de palmeira que se encontravam na parte de trás do carro e ao mesmo tempo eu estava apavorado com medo de meu pai descobrir a façanha. Resolvi então descer. Só que não pedi para parar, simplesmente pulei. Acordei, três dias depois, cercado de pessoas. Não me lembrava de nada. Só sei que estava com uma fome tremenda.
Após este acidente, meu pai foi acometido por malária. Como isso, situação tornou a ficar insustentável, não podíamos mais continuar morando ali. Então minha mãe chamou meu pai e proclamou: ou você dá um jeito de sairmos daqui ou eu vou sozinha com meus filhos, você escolhe! O velho baixou a cabeça e resolveu que todos iriam para Teresina, onde já moravam duas irmãs de minha mãe.
Chegamos a Teresina em agosto de 1974. Em março de 1975, com doze anos e meio, eu entro pela primeira vez em uma escola e em março de 1992 sou o orador da turma de Química da Universidade Federal do Piauí. Nesse intervalo, passei um ano e meio sem estudar.
Em Teresina não fui apenas estudante, vivi muitas aventuras e desventuras, mas isso eu conto em uma próxima oportunidade. Estou cansado e bateu a melancolia, por isso estou parando.
Sei que posso parecer um personagem de Monteiro Lobato, mas é tudo verdade e é por isso que sou feliz. Por ter vivido e superado muitas situações adversas.
Tristezas que senti foram muitas. Desilusões, várias, mas baixar a cabeça, jamais. Não sou feliz por aquilo que me falta, mas sim por poder lutar a cada instante por dias melhores e saber que isso é possível.
Como minha história eu mesmo venho construindo, acho que, realmente, minha genealogia está em mim mesmo.